
FOSSE A FACA, FOSSE O FOGO
fosse a faca com seu brilho de prata
a imagem que se espalha pelo espelho,
mas o que se vê, rebrilha vermelho,
olho d´água de pranto: sangria vasta
fosse o leito do rio língua de fogo
a lamber feridas, salvar derrames,
mas o que se sente, já tarde e exangue,
é flagelo da carne, exposta em tocos
fosse um só curso sem corte de lâmina
ou desnível de vida – lume flúveo,
mas o que se vinga na luta em fluxo
ruma em desonra, desordem e infâmia
fosse a força vã de dois afluentes
o encontro de paz entre duas famílias
mas o que se flama do abraço líquido
corre turva como almas turbulentas
* Ilustração: Murilo Martins
In "Faca de Ponta, Fogo de Palha" (Oficina Editores, 2012).
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