O despertador não me é cruel. Sou irmão do tempo, antenado com
o mundo e meu corpo metafísico transcende a realidades extraordinárias. Minha
geografia íntima reflete o mapa oculto da cidade onde habito. E eu a conheço
como a mim mesmo. Curvas acentuadas, contornos perigosos, vias de acesso,
sinais luminosos, placas de contramão. Todos os sentidos fazem sentido no meu corpo diário.
Tenho uma visão pós-moderna a respeito das coisas e tato
para lidar com o futuro.
Não dou ouvidos a caretas e torço o nariz para aqueles que
não fedem nem cheiram.
Meu nome está na ponta da língua para quem quiser ouvir.
Participo, questiono, aprendo. Faço da rotina um bem-estar
capital para o meu corpo-cidade, que a cada dia se desenvolve, progride.
Pulo da cama, entro no banho, sento-me para tomar café.
Desço escadas, atravesso ruas, dobro a esquina, subo no ônibus. Dou lugar a um
idoso. Ah, engarrafamento! O trocador reclama. O motorista xinga. Buzinaço.Uma
hora de pé até chegar ao trabalho. Há quem fale pelos cotovelos com razão...
Mas, apesar de toda essa ginástica urbana, eu agradeço a
Deus por tudo funcionar em
mim. Meu corpo é um manifesto público, um ponto sobre outro
do espaço. Corpo de outro corpo maior, disposto a dar o próximo passo. Sou
uma linha em extensão, contínua na imensidão. Matéria e espírito sintonizados
num só canal de transmissão, ao vivo e em cores. Ínfimo átomo em festa sideral.
Alegria de vida que salta e explode na rodagem universal. Maravilha de carne e
osso no firmamento. Um colosso feito de razão e emoção.
Pois só isso justifica
a existência humana: um corpo em movimento, uma alma em expressão.