sexta-feira, 17 de maio de 2013

Corpo Diário (de Jorge Ventura)



O despertador não me é cruel. Sou irmão do tempo, antenado com o mundo e meu corpo metafísico transcende a realidades extraordinárias. Minha geografia íntima reflete o mapa oculto da cidade onde habito. E eu a conheço como a mim mesmo. Curvas acentuadas, contornos perigosos, vias de acesso, sinais luminosos, placas de contramão. Todos os sentidos fazem sentido no meu corpo diário.

Tenho uma visão pós-moderna a respeito das coisas e tato para lidar com o futuro.
Não dou ouvidos a caretas e torço o nariz para aqueles que não fedem nem cheiram. 
Meu nome está na ponta da língua para quem quiser ouvir.

Participo, questiono, aprendo. Faço da rotina um bem-estar capital para o meu corpo-cidade, que a cada dia se desenvolve, progride. 

Pulo da cama, entro no banho, sento-me para tomar café. Desço escadas, atravesso ruas, dobro a esquina, subo no ônibus. Dou lugar a um idoso. Ah, engarrafamento! O trocador reclama. O motorista xinga. Buzinaço.Uma hora de pé até chegar ao trabalho. Há quem fale pelos cotovelos com razão...
Mas, apesar de toda essa ginástica urbana, eu agradeço a Deus por tudo funcionar em mim. Meu corpo é um manifesto público, um ponto sobre outro do espaço. Corpo de outro corpo maior, disposto a dar o próximo passo. Sou uma linha em extensão, contínua na imensidão. Matéria e espírito sintonizados num só canal de transmissão, ao vivo e em cores. Ínfimo átomo em festa sideral. Alegria de vida que salta e explode na rodagem universal. Maravilha de carne e osso no firmamento. Um colosso feito de razão e emoção.

Pois só isso justifica a existência humana: um corpo em movimento, uma alma em expressão.

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